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terça-feira, 1 de julho de 2008

Dez


É sempre muito bom assistir algo em que se pensa logo no começo: “Que diabos é isso que eu estou assistindo?”. Essa experiência não é muito comum no cinema, um lugar povoado de oceanos de obviedades. Dez, do iraniano Abbas Kiarostami, me trouxe essa sensação. Mesmo que no início eu não tenha me conectado totalmente com o filme e tenha até sentido um pouco de sono.


A grande questão é que ele deixa um efeito residual, um ‘gostinho’ na boca que faz você voltar os pensamentos pra ele mesmo depois de ter assistido dias atrás. O filme acompanha Mania Akbari, uma mulher de meia-idade iraniana que recebe dez pessoas em seu carro, enquanto perambula pelas ruas de Teerã. E é isso. Duas câmeras DV captam o rosto de Akbari e de quem quer que esteja ocupando o banco do carona. As pessoas que passam pelo carro vão desde seu filho de sete anos, uma senhora muito religiosa, uma prostituta e uma amiga abandonada pelo marido.


O filme obviamente discute o papel da mulher na sociedade islâmica. Mas vai mais além. Kiarostami disse que o concebeu como um filme sem diretor (!). Ele dava orientações por um ponto no ouvido dos atores, e realizou ensaios e orientações com seu elenco, e foi só.


Além disso, os atores representavam papéis baseados em suas próprias vidas e não havia roteiro. Uma outra grande questão que emerge dessas informações é sobre a cada vez mais tênue distinção entre documentário e ficção. Quando o menino Amin está falando com sua mãe fica bastante claro que aquele texto não é puramente ficcional, sua mente infantil e machista não maquinou tudo aquilo, o conflito é verdadeiro.


E como fica a grande e pomposa teoria do auteur num filme que foi concebido com não tendo direção? Ela obviamente esta lá, mas mira o invisível, mira desaparecer. Como enquadrar Kiarostami como um auteur sendo que sua obra cada vez mais é totalmente heterogênea? Talvez não seja ele o culpado, talvez a teoria do auteur é que deveria mudar. Quem sabe desaparecer.






quinta-feira, 13 de março de 2008

DVD: Na Captura dos Friedmans


Embora não seja dos maiores fãs de documentários, tinha ouvido muitas críticas positivas desse filme e resolvi conferir. Não me arrependi nem um pouco, como, aliás, costuma acontecer quando eu cedo e vejo documentários. Na Captura dos Friedmans narra a história da destruição de uma família após as acusações de abuso sexual do pai e do filho mais novo.

Assuntos como a pedofilia sempre trazem à tona aquele sentimento de asco e revolta, e filmes que o abordam tendem a ser maltratados pelo público se não assumem a versão mais senso comum da coisa toda. Bem, Na Captura dos Friedmans não assume a posição mais comum, mas também está longe de fazer apologia ao crime. O principal acusado, Arnold Friedman, que na época das filmagens já estava morto, é focado no filme com distância crítica e uma certa ironia. A idéia que ele e seus filhos tinham de que todas as acusações não passavam de uma conspiração diabólica da polícia, é tratada com o devido ceticismo pelo diretor. Mas ainda assim ele não se furta de analisar o caso com rigor e descobre que muitas das acusações eram, se não falsas, altamente duvidosas.

O diretor Andrew Jarecki descortina um aspecto da sociedade ao voltar sua câmera para a família Friedman. E foi totalmente sem esforço que me lembrei imediatamente de Pecados Íntimos. Esse último filme parece encarnar de maneira ficcional o que o documentário de Jarecki encarna de maneira real. A sociedade cria uma histeria em torno de casos como esses justamente porque não quer pensar nos seus próprios ‘pecadinhos íntimos’.

Mas o aspecto mais marcante do filme todo é o relacionamento que a família Friedman estabelece com a imagem. São inúmeros registros filmados pelos filhos dos Friedmans e também por gerações mais antigas. Logo no início, David, o filho mais velho, aparece em um vídeo-diário, onde registra imediatamente que o caráter daquela filmagem era unicamente pessoal, não visava a exibição para outras pessoas. Portanto, a intimidade de uma família sendo exposta dessa maneira parece ser o aspecto mais chocante do documentário. David não desiste de filmar nem nas constantes brigas que a família tinha, está tudo lá, registrado para sempre.

O diretor traça impressionantes considerações a esse respeito. Justamente quando se pensa que o cotidiano filmado de uma família poderia jogar luz sobre uma tragédia de proporções tão grandes, a obra demonstra que o caráter desgastado da imagem hoje em dia é quase nulo. Qual segurança alguém tem sobre sua imagem atualmente? Nenhuma, justamente porque tudo é sobre a imagem e não mais sobre as pessoas. Sobre os Friedmans, poderia se falar qualquer coisa, ou mostrar, mas a tragédia já os tinha engolido de tal maneira que ninguém mais acreditaria em nada, por melhor que fosse.

Quem garante que grandes partes do processo movido pelo estado contra a família não fossem baseados em uma investigação mal feita e incoerente (como o próprio filme parece querer mostrar em alguns momentos)? Mas do que adianta isso? Como bem fala uma das detetives envolvidas no caso, uma vez que alguém é colocado como suspeito de um caso como esse é o fim da sua vida, independente se é culpado ou não. Sua imagem estará eternamente indexada a isso, mesmo que ele não esteja.

A extensa filmagem da família é apenas a demonstração de que a imagem está lá para que esqueçamos do essencial. O próprio David diz em determinado momento do filme que filmou as últimas horas do irmão, antes dele ir para a cadeia cumprir sua pena, porque assim era mais fácil, filmando ele não precisava estar lá de fato, não precisava pensar naquilo. É como a pequena bailarina mostrada no documentário, morta durante a infância, irmã de Arnold Friedman, algo belo mas que foi perdido pra sempre. Só restou sua imagem.

segunda-feira, 10 de março de 2008

DVD: Invasão de Domicílio


Provavelmente eu sou a única pessoa no mundo que gostou de O Paciente Inglês, mea culpa. Mas peguei esse Invasão de Domicílio na prateleira da locadora esperando por um Anthony Minghella mais ágil, não encontrei. Também, isso seria o mesmo que querer um Roland Emmerich introspectivo. Os filmes do Minghella não me desapontam, eu tampouco acho que sejam obras maravilhosas e perfeitas, mas serve para um dia de chuva. O trailer foi o responsável por condenar o filme um pouco. Tem até umas duas perseguições, mas não espere nada do naipe de um Jason Bourne.

Will Francis (Jude Law) é um arquiteto que, depois de ver seu escritório assaltado diversas vezes, passa a montar guarda na porta do estabelecimento. Entre conversas com uma prostitua feminista, música e café, numa bela noite ele consegue flagrar Miro Simic (Rafi Gavron), um adolescente que se estabelecera como o ladrão ‘fixo’ do escritório de Will. O arquiteto, disposto a acabar de vez com a farra dos ladrões parte em busca do garoto e consegue descobrir onde mora. A partir daí Will se envolverá com a mãe do menino (Juliette Binoche), num caso extraconjugal para fugir das pressões do próprio casamento com Liv (Robin Wright Penn).

O grande problema de Invasão de Domicílio é a profusão de temas. Aparentemente Anthony Minghella quis tratar de todos os assuntos possíveis nesse filme. Desde conflitos raciais, desigualdade social, feminismo e preservação ambiental. Nem preciso dizer que ele só conseguiu lidar com maturidade com uns dois, no máximo. Os outros foram apenas tangenciados, mas talvez, no fim das contas, isso tenha sido bom. Mas o que me incomoda de fato é o final. Will Francis peca pela condescendência com que leva o casamento e vê a si mesmo, e o final do filme parece apenas reiterar esse erro.



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A Noite Americana

Nenhum filme é uma declaração de amor ao cinema tão escancarada e franca como A Noite Americana. Truffaut chega bem próximo do piegas em alguns momentos, mas tudo bem, o cinema também chega às vezes, e ninguém está reclamando. Afinal de contas um apaixonado sempre tende a exageros, e se uma única coisa pode ser dita de Truffaut é que ele era um eterno apaixonado pelo cinema. É um daqueles casos em que o cinema literalmente salva a vida de alguém.

O filme traça a história de Ferrand (vivido pelo próprio Truffaut), um diretor lutando a todo custo para terminar seu filme ‘Je vous presente Pamela’. Entre as muitas dificuldades que Ferrand enfrenta estão os problemas com os atores, entre as principais. Vão da imaturidade de um ator (Jean-Pierre Léaud) e suas paixões infantis, à instabilidade emocional de uma atriz inglesa (Jacqueline Bisset) até a morte de um dos principais nomes do elenco (Jean-Pierre Aumont).

O filme em si é uma aula de cinema. Podemos acompanhar todas as etapas da produção de um filme e parte da pós-produção, quando o diretor e a equipe assistem pedaços recém editados da obra. Uma coisa interessante a se notar é que Truffaut compôs um diretor que escreve o roteiro enquanto o filme já está em processo de produção, algo no mínimo raro, embora existam casos parecidos. Acredito que o diretor francês assim o fez para que o espectador pudesse apreciar também essa importante etapa do processo de criação de um filme, uma vez que toda a história se daria apenas na etapa de filmagem. Como excelente roteirista que era, Trufffaut não deixaria esse importante pedaço de fora de sua narrativa.

Uma outra forma de mostrar o amor e a dedicação sacerdotal ao cinema, é a forma como a própria equipe se relaciona com o cinema. Alphonse (Léaud) em qualquer folguinha diz que vai ao cinema. Em outro momento a equipe quase toda marca de ir ao cinema, mas a assistente de direção no último momento não pode ir, pois tem que ajudar o diretor. Enquanto está no quarto escrevendo o roteiro do dia seguinte, Ferrand confere no jornal o que está sendo exibido nos cinemas da cidade, concluindo que Godfather está arrasando. É uma equipe que preenche seu dia (e muitas vezes a noite também!) com cinema, horas e horas de filmagem, ensaios, construção de cenários e figurinos, e nas horas vagas o que eles fazem? Vão ao cinema. O cinema é, enfim, um trabalho do qual eles não querem descanso, não querem se ver livres e distantes dele.

Outra característica a se apreciar é a enxurrada de citações e referências a filmes clássicos que Truffaut salpica no longa. Dentre todas essas há uma cena memorável, onde Ferrand escuta parte da trilha composta para o filme por telefone, enquanto desembrulha um pacote de livros que comprara. Uma historiadora de Truffaut (cometi a indelicadeza de esquecer o nome dela), comentando sobre essa cena nos extras do DVD, salienta para o fato de que a trilha que Ferrand escuta ao telefone é originalmente de “Duas inglesas e o amor”, um filme de 1971 também de Truffaut. E como este último é uma história que, obviamente, fala sobre o amor, ao usar essa canção em A Noite Americana, na cena onde justamente serão mostrados em plano de detalhe a capa de vários livros sobre grandes diretores, fica mais do que clara a intensa paixão que Truffaut nutria pelos antigos mestres.

Aliás, dos egressos da Nouvelle Vague Truffaut parece ser o que mais se identifica com o cinema americano. Em seu livro, seminal, Hitchcock/Truffaut Entrevistas, essa identificação é muito transparente quando o diretor francês interroga Hitchcock a respeito dos filmes deste último. Truffaut é também o diretor francês do período Nouvelle Vague que é, de certa maneira, mais acessível para o grande público. Pegue alguém que se interesse por cinema minimamente, e o coloque para assistir Os Incompreendidos e Acossado, logo depois compare a opinião desta pessoa.

A Noite Americana ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1974 e concorreu no ano seguinte em mais três categorias (diretor, melhor atriz coadjuvante (Valentina Cortese) e melhor roteiro original. O nome se refere a uma técnica da fotografia que simula a noite, gravando as cenas durante o dia.

Trailer aqui. Já neste blog o autor faz uma comparação (quase inevitável) entre A Noite Americana e Perdas e Danos de Louis Malle, e além disso a alma caridosa teve a paciência de montar todas os pedaços de Je vouis presente Pamela neste vídeo.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Filmes do Final de Semana

O Som do Coração

A princípio inicia-se como um Oliver Twist musical. Mas depois perde as características de um bom melodrama para ceder a cenas pobres. A única coisa que segura o filme são algumas atuações interessantes, Terrence Howard, como um assistente social engajado é brilhante em seu papel tão pequeno. Keri Russel também se sai suficientemente bem como a mãe de Evan. Já Freddie Highmore não se sai tão bem na pele de Eva Taylor/ August Rush, muito embora tenha gostado do seu jeitinho frágil em Em busca da Terra do Nunca, e também tenha achado que ele se saiu muito bem em Um bom Ano, Freddie não repete a mesma atuação aqui. Tanto é que é fácil roubar-lhe a cena, a garotinha negra na seqüência da igreja o prova facilmente. Mas nem Robin Williams está em sua melhor performance neste filme.

O Bebê de Rosemary

Como com qualquer clássico, nunca é demais assistir mais uma vez. Foi minha segunda, e desta vez pude apreciar melhor os aspectos dramatúrgicos. O casal principal (formado por Mia Farrow e John Cassavetes) é fenomenal e tem um química fantástica. Os velhinhos também são um show a parte e oferecem um interessante ponto de vista cômico sobre a história, tão densa e macabra. Mas além de tudo isso o que mais me chama atenção são os sonhos de Rosemary, seus pesadelos e alucinações. Não houve melhor década para pesadelos no cinema do que a década de 60, e dizem que as drogas não trazem benefícios...

Boas curiosidades sobre o filme aqui.

Mandando Bala

Tenho fases, e em algumas delas, por acaso, quero sempre assistir filmes de ação. Mas não sei se é porque não estou numa dessas fases que odiei esse filme. Talvez não. Talvez eu tenha odiado porque ele é ruim mesmo. A princípio simpatizo com o gênero: comédia com ação, especialmente quando eles não se levam a sério demais. Ponto para Mandando Bala, que não se leva a sério em nenhum minuto. Também não me incomoda falta de veracidade em cenas de ação, outro ponto para Mandando Bala, que atira as leis da física pela janela. O problema é que eu gosto de roteiro sabem? E não estou falando de grandes estruturas não, algo simples já ta bom. A impressão que me deu foi que Mandando Bala foi construído em cima de das seqüências de ação e a ‘história’ foi desenvolvida depois. Sendo assim, sempre que os personagens perseguidos (no caso Clive Owen, Monica Bellucci e um bebê) mudam de lugar, os bandidos que os perseguem aparecem momentos depois, sabe-se lá como, atirando aos borbotões. E o filme é basicamente isso: variações de seqüências de ação, variando os locais e as atividades do personagens (por exemplo: ‘Ah vamos fazer uma que eles estão transando no meio do tiroteio?’). Sem nada com o que trabalhar Paul Giamatti também foi resumido a um vilão que diz o texto e faz caretas. Pra piorar o placar o filme ainda assume um tom levemente moralista no final, aí não dá. Nesse gênero eu ainda fico com True Lies. Parafraseando Smith: Sabe o que eu odeio? Filmes com uma trilha sonora tão presente e tão forte que você não tem nem dois minutos sem música metal pra respirar.





terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Paprika

Na narrativa de Paprika, um dispositivo chamado DC Mini foi inventado com o único propósito de ser um auxílio para terapeutas e seus pacientes. Funciona fazendo com que o terapeuta possa penetrar nos sonhos de seus pacientes, e foi inventado pelo enormemente obeso cientista Tokita Kohsaku. Chiba Atsuko, uma terapeuta e desenvolvedora do projeto, acompanha os primeiros testes do aparelho. Para tanto, ela possuiu um avatar no mundo dos sonhos, chamada Paprika. O filme se inicia com os pesadelos de Kogawa Toshimi, um detetive que afirma ter deixado um crime sem solução para trás, e por isso, vive perturbadamente. Os pesadelos no mundo real começam justamente quando um terrorista se apropria do DC Mini e começa a entrar nas mentes das pessoas conectadas a ele.

Paprika desde o começo se mostra extremamente desinibida, digamos assim. Por exemplo, ela atende o detetive em um quarto de hotel, onde ela ocupa uma cama e ele outra, ambos trajam apenas roupões. Já seu alterego, do lado do mundo real, é exatamente o oposto, trajando roupas de executiva, cabelo amarrado e feições muito pouco expressivas. Paprika, quando se movimenta é bem mais espalhafatosa e sensual usando sempre roupas coloridas, já a Dra. Chiba é contida e rígida em seu terninho cinza.

O filme abusa dos opostos para demarcar o limite entre os mundos do sonho e da realidade, mas os opostos não param por aí e também são usados para diferenciar os personagens. O presidente, como é chamado o chefe da instituição onde trabalham, é um homem com uma rígida posição em relação a ciência. Acredita que entrar nos sonhos das pessoas é levar a tecnologia a penetrar o último lugar sagrado da humanidade. Por isso, ele sempre é emoldurado por árvores e plantas, seu escritório é lotado delas e em determinado momento do filme ele sai detrás de arbustos. A direção de arte do filme é primorosa em marcar os personagens através do universo que os emoldura.

Mas Paprika, ao contrário de muitos outros Animes, não foi concebido para agradar unicamente os amantes da pura porra-louquice. Não me entenda mal, ele é ainda um exemplar desse gênero de Animes, mas mantém uma espinha dorsal sólida, que mesmo sendo difícil de acompanhar em alguns pontos, ainda é possível de ser mantida à vista.

Os obstáculos maiores ao acompanhamento da trama residem nas referências obscuras à psicanálise (e também na teoria Junguiana) e as referências cinematográficas. Tenho vergonha de dizer que reconheci mais as referências do primeiro grupo do que as do segundo. Mas uma referência eu salvei, talvez porque fosse óbvia, mas mesmo assim deixe-me ficar com minha vitória. As cenas no bar com o policial são referências claríssimas as cenas do bar do hotel em O Iluminado. Além disso, existem outras cenas dos pesadelos do detetive que certamente remtem a outros filmes, mas tive de pesquisar para descobrir, entre eles estão a Princesa e o Plebeu, filme com Audrey Hepburn.

Enfim, eu aconselho seriamente a quem não viu, assistir esse filme o mais rápido possível.




segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Possuídos


Fui ver esse filme movido pelo buzz que escutei por aí. Mas tenho dó de quem alugou pensando se tratar de um filme de terror convencional. O filme nada mais é do que uma narrativa de loucura. As origens teatrais da obra também são evidentes, muitos, muitos diálogos e unidade de ação concentrada num único quarto de hotel.

O filme narra a história de uma mulher que sofre a perseguição do marido, recém saído da prisão onde cumpria pena por assassinato. Além disso, a coitada ainda tem que carregar o fardo de ter perdido o filho de seis anos num supermercado anos antes. E, numa certa noite Agnes (Ashley Judd), depois de sair de seu emprego de garçonete, recebe uma amiga que traz um convidado um tanto esquisito. A história gira a partir desse encontro, onde o homem, morbidamente sedutor, vai envolvendo-se na vida da garçonete.

Se no princípio vemos pelo menos dois cenários (o bar onde Agnes trabalha e um supermercado), e ainda o exterior do quarto de hotel onde Agnes mora, do encontro com o estranho pra frente o filme começa a se tornar intensamente claustrofóbico. Um ambiente mais do que apropriado para a vida dos personagens.

O problema com Agnes é que ela é tão carente e frágil que se enreda nas tramas de um homem visivelmente perturbado, mas que a trata bem. O filme não demonstra nem por um minuto uma ambigüidade na história, não dá pra acreditar na paranóia dos personagens por nada deste mundo, portanto, a história é uma visão para o precipício.

Os diálogos histriônicos do final chegaram a me incomodar um pouco, mas depois deu pra entender, era o clímax.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Extermínio 2



Extermínio 2, também conhecido como 28 Weeks Later, narra a história dos primeiros britânicos de volta a Londres, seis meses depois da primeira infecção. O vírus, mostrado no filme anterior, transformava imediatamente pessoas em zumbis loucos por carne humana. Cinco semanas após a evacuação de e isolamento da Inglaterra, os monstrengos morreram de fome. Algum tempo depois o exército americano, obviamente, entra na cidade e começa a reestruturá-la. Seis meses depois os britânicos que sobreviveram a primeira infecção começam a retornar, em clima de lei militar.

Você deve ter reparado que eu disse sempre ‘primeira infecção’, porque, obviamente, o vírus volta a atacar. Não faria o menor sentido uma continuação do primeiro filme se isso não acontecesse. E a continuação é até interessante, mantém o mesmo clima sombrio e de destruição do seu predecessor. Com a diferença que em Extermínio a destruição é sempre mais visceral do que nos filmes americanos. Nestes, o enfoque acaba sendo nas paisagens digitais e explosões faraônicas.

O problema é que Extermínio 2 peca exatamente onde o outro acertava. Quer dizer, não sei se acerto seria a palavra correta. No primeiro filme as pessoas se transformavam em animais violentos quase que imediatamente depois do contato com um infectado. Parece inverossímil, e de fato é, mas se você vai acreditar em todo o resto, what the hell! A questão é que essa velocidade de contração da doença tornava o filme muito interessante, criando situações estressantes para os personagens principais.

O segundo filme mantém a mesma velocidade de contaminação, mas, não faz um bom uso dela. Quando vários sobreviventes estão enclausurados e um infectado começa a os atacar, os militares tomam a ‘sábia’ decisão de matar todos. Se o vírus se espalha tão rapidamente assim, seria óbvio que o correto a fazer era esperar que os infectados se manifestassem, separá-los dos outros e manter os sobreviventes. Fazendo exatamente o contrário o filme desperta um sentimento de artificialidade, como se os roteiristas tomassem uma decisão criativa única e exclusivamente para manter a história funcionando. Agora, os personagens centrais da trama, um menino de 12 anos e sua irmão de 16, além de enfrentarem os infectados, tem que enfrentar também o exército americano jogando napalm em suas cabeças.

A história dá um passo a mais ao introduzir um personagem que parece ter a capacidade de não apresentar os sintomas do vírus, mas apenas carregá-lo em sua corrente sanguínea. Ao que parece, essa é uma franquia que ainda verá alguns outros descendentes.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Obrigado por Fumar

Reza a lenda que um dos pontos de virada da filosofia ocidental foi quando Sócrates começou a fazer oposição aos sofistas. Estes últimos eram uma classe de filósofos que se dedicavam a retórica pura e simples, concentravam-se em vencer uma discussão. Para Sócrates e seus pupilos posteriores (Platão seguido de Aristóteles), esse, entretanto, não era o ponto central da filosofia. A filosofia deveria se concentrar em desvelar a verdade, a argumentação era apenas uma das ferramentas que possibilitaria esse ofício.

Nick Taylor (Aaron Eckhart) é um sofista por natureza. Ele seria capaz de vender um casaco de pele a uma ativista do PETA, num jantar, devorando um assado de javali. Depois ele a convenceria a dar uma surra num saco cheio de gatinhos. Você entendeu. Ele é o cara ideal para a indústria de cigarros, portanto. Trabalha no que ele chama de ‘reinterpretação de Dados’, ou seja, um ponto de vista não tão ortodoxo sobre a indústria do fumo, a favor dessa própria indústria.

E se você achou que a aproximação de um porta-voz da indústria de cigarros com a distinção histórico-filosófica entre sofista e filósofos foi extremamente arbitrária, é só assistir Obrigado por Fumar que você entenderá. Nesse filme todo mundo é um sofista, e, perceba, até os sofistas acertam de vez em quando.

O diretor Jason Reitman, o novo queridinho da indústria pop-independente do cinema americano, demonstra em seu filme que a ênfase na articulação retórica está nos dois lados da questão. De um lado, o dark side por assim dizer, a indústria do tabaco apresenta uma retórica inabalável, calcada no ‘direito de escolha’ e ‘no livre pensamento’. E obviamente não escapa de erros também. Quando, por exemplo, Nick está com seus amigos da Liga da Morte (formada pelos representantes das indústrias de armas e bebidas, juntamente com Nick), seu colega da indústria bélica alega: “Quando alguém morre de acidente de avião, você culpa a Boeing?”. O que obviamente é um erro, o avião é um veículo para voar e quando cai isso é uma aberração dentro dos parâmetros sob os quais ele foi construído, um acidente. Já as armas quando matam estão pura e simplesmente executando aquilo para que foram desenhadas. A reinterpretação dos dados, ou distorções falaciosas são o Santo Graal para Nick, entretanto. Quando ele conversa com o filho diz: “Quando você argumenta não precisa estar certo”. O que, a bem da verdade, está correto. Uma argumentação pode ser coerente sem se aproximar da verdade. É isso precisamente que faz de Nick um sofista, o que ele faz é substituir a venda de cigarros por uma venda de argumentos coerentes, porém falsos.

Do outro lado o senador Otorlan Finistirre (William H. Macy, ótimo pra variar) inicia uma guerra contra o cigarro. E deste lado do front a situação em termos de argumentação não é muito melhor. O filme parece querer mostrar que quem se opõe, normalmente está tão acomodado em sua situação e considera suas ideologias tão naturais, que não precisa ter o trabalho de defendê-las. É por esse motivo que quando Nick pressiona seus opositores com suas falácias eles só conseguem exibir discursos lacunosos em tatibitate. Não estão preocupados em defender suas idéias porque passaram muito tempo contemplando-as como as mais corretas entre as idéias. O Senador Otorlan Finistirre é apenas um moralista disfarçado de libertador do povo, como mostra tão bem o final do filme. Sua estratégia é erigir leis tão óbvias que o povo estaria livre da tarefa tão penosa de pensar.

Usando a estratégia da relação pai-filho o diretor nos coloca na posição da criança. Assistimos Nick demonstrar todo o seu conhecimento da forma mais pedagógica possível, e ganhar a admiração do menino. E quase nos convencemos também que o cara é realmente um herói. Porque, afinal de contas, parece que naquela briga milenar os sofistas levaram a melhor, ninguém liga mais pra verdade, importa é quem conta a mentira mais bem contada.




Thank You For Smoking, 2005 - Dir. e roteiro: Jason Reitman - Com: Aaron Eckhart, Eric Haberman, Mary Jo Smith, William H. Macy, Cameron Bright, David Koechner, Kim Dickens, Robert Duvall, Katie Holmes.