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terça-feira, 10 de junho de 2008

As Crônicas de Nárnia: O Príncipe Caspian

Em comparação com o filme que deu origem a franquia esse novo filme é um refresco bem-vindo. O primeiro me irritou extremamente, tanto é, que nunca mais voltei a ele desde que o vi no cinema quando foi lançado.

Desta vez os irmãos Pevensie, retornam à Nárnia após um prosaico ‘chamado’ do príncipe Caspian, o atual e perseguido herdeiro do reino dos Telmarines. O príncipe está em apuros, pois seu tio deseja elimina-lo agora que possui ele próprio um herdeiro. Os quatros reis da antiguidade retornam então a Nárnia após terem abandonado o lugar há mil anos (o equivalente a um ano ‘terrestre’).

É claro que alguns itens irritantes do longa original se mantém nesse segundo. Os atores que ocupam os papéis juvenis continuam com tão pouco carisma quanto antes, uma falha grande do diretor Andrew Adamson ao dirigir seu elenco (fico me perguntando se esse sobrenome do diretor é alguma forma de gracinha com a história do filme, já que Adamson, é ‘Filho de Adão’, um termo recorrente na mitologia de Nárnia, ou se é só uma coincidência). O único destaque que consigo enxergar no elenco é o de Peter Dinklage, responsável pelo anãozinho Trumpkin, um reclamão, porém leal narniano.

Mas foram as seqüências de ação que cresceram nesse filme, as lutas de espada e batalhas realmente alcançaram um nível próximo da maturidade. É claro que a misteriosa e famosa falta de sangue em Nárnia continua lá. Os efeitos digitais continuam excelentes, com exceção de algumas poucas cenas de multidão onde o cuidado com a computação gráfica deixou a desejar.

A direção de arte de O Príncipe Caspian é outro fator que salta aos olhos. As armaduras mostram texturas e desenhos delicados, denotando o cuidado com a cenografia do filme. A concepção dos Telmarines trajando roupas como colonizadores espanhóis é um fator de grande importância para concebermos o perigo e a ameaça que sondam os remanescentes mágicos de Nárnia, acuados como os índios da América. O refúgio de pedras dos narnianos lembra – ainda que vagamente - as construções incas, e seu interior é decorado com pinturas rupestres.

Mas o roteiro – de A. Adamson, C. Markus e S. Mcfeely - apresenta uma série de buracos que, acredito, devem-se mais ao livro. Ainda não conferi a obra de C.S. Lewis, e não pretendo, mas penso que a afobação em incluir uma metáfora religiosa perfeitamente acabada na história faz com que algumas brechas apareçam inevitavelmente. Sendo assim, a inexplicável ausência de Aslan durante a maior parte da projeção não chega a alcançar uma resposta, fica apenas com a leve e frágil noção de que é uma questão de fé. Pode até funcionar na religião, mas cinema é outra coisa.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal



Confesso que o trailer de Indiana Jones me deu arrepios na primeira vez que assisti. E nas outras também. O som da musiquinha inesquecível de John Williams foi tão nostálgico que cheguei a sentir o gostinho de infância na boca. De todos os filmes ‘clássicos’ dos anos 80, esse, talvez, tenha sido o que mais assisti. E como eu brinquei de Indiana Jones no quintal da minha casa! Bons tempos aqueles.

É no mínimo lamentável, portanto, que a continuação de uma trilogia clássica seja um filme tão sem sal e desprovido de qualidades como esse. E olha que eu apostava todas as minhas fichas nessa produção.

Nessa nova aventura Indiana Jones é envolvido com militares comunistas, liderados pela coronel Irina Spalko, uma Cate Blanchett totalmente caricatural e insossa. Quando começa a ser investigado também pelo FBI, dado seu envolvimento com os comunistas, Indy é contatado por Mutt Williams (Shia LaBeouf) um rapaz que solicita sua ajuda para localizar a mãe e um antigo conhecido de Indy.

Desde o princípio da trama (nos primeiros minutos mesmo) fica claro que os personagens investigam qualquer tipo de evento alienígena, e como se isso não fosse por si só enormemente destoante das aventuras anteriores de Indiana Jones, o roteirista (David Koep) ainda faz o favor de incluir temas como habilidades parapsíquicas. Temas, aliás, que são a principal gordura extra do roteiro, uma vez que são apenas mencionados ou levemente tocados sem que seu papel seja significativo para fazer a trama andar. Outra coisa que incomoda bastante é o fato de que em dois momentos aparecerem ‘nativos’ nos sítios arqueológicos que Indiana investiga, que atacam o professor, mas dos quais não sabemos nada, tampouco porque eles atacam Indiana Jones. E assim como surgem eles desaparecem da trama sem mais nem menos. Como esse, existem ainda outros buracos que permanecem sem resposta no roteiro.

A sensação que o filme todo proporciona é que existem eventos que aconteceriam se aqueles personagens estivessem lá ou não. É uma grande sensação de gratuidade. Não vemos Indiana Jones no filme. E nem sabemos por que ele continua investigando os eventos da forma que o filme mostra. Afinal, não existe motivação suficiente para que ele continue. Pelo menos, se tomarmos os outros filmes como exemplo, Indiana Jones é um personagem difícil de ser demovido das próprias vontades, e toma sempre o caminho mais curto e simples para realizar algo. É como se fosse um filme de Indiana Jones em que as ações pudessem ser executadas pelo seu Zé da padaria da esquina.

Assim como a personagem título, a vilã da história também não tem brilho e seus desejos são altamente superficiais. Sabemos que ela se interessa pelos dons psíquicos da caveira de cristal mas não temos um mapa preciso do que ela pretende e como executará o que pretende. Ela também não oferece um antagonismo eficiente à Indiana Jones, justamente porque é muito superficial. Talvez o pior papel de Blanchett em toda sua carreira.

Indiana Jones e O Reino da Caveira de Cristal é, portanto, uma decepção gigantesca. Chegou a me dar sono no cinema. Esperamos 18 anos por uma continuação, mas eu ficaria de bom grado esperando mais uns cinco se isso fosse produzir um filme melhor.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Speed Racer


Assistindo a trilogia Matrix fica bastante claro que os Wachowski não são uma dupla de diretores que se preocupa muito com a realidade. No máximo poderia se dizer que a realidade é um irritante obstáculo que precisa ser violado em seus filmes. Speed Racer é mais uma prova disso, e é bom que o espectador tenha isso em mente quando entrar na sala de cinema.

Speed Racer é a adaptação do famoso Anime homônimo da década de 60. Narra a história de Speed Racer, um piloto de corridas que perdeu o irmão num acidente misterioso e tem que enfrentar o antagonismo de Royalton (Roger Allam), um poderoso mafioso e empresário do ramo automobilístico que quer Speed Racer em sua equipe de corridas a todo custo. Contrastando a animação ‘estática’ e tosca do desenho original os irmãos Wachowski escrevem e dirigem um filme onde a ação e a direção de arte comandam.

É claro que o filme vem sofrendo acusações de todos os lados. Cores demais? Realizações absurdas demais? Entretanto, nenhuma dessas acusações pôde me impedir de achá-lo um filmaço. Afinal de contas, não se trata de um filme sobre corridas, trata-se de um filme de corridas num universo paralelo, o universo dos Wachowski, onde a realidade é persona non grata. E desde quando cores demais são um problema? É só pensar em Tron e A Fantástica Fábrica de Chocolates, outros dois filmes que também se passam em realidades paralelas.

A única questão é saber se as cores assumem um papel primário e ofuscam o geral do filme, e de modo geral eu responderia negativamente a essa pergunta. Elas são usadas para referenciar o berço de onde o longa saiu, os Animes, para transformar o filme num desenho vivo. Mas confesso que em alguns pontos foi difícil distinguir na tela o que acontecia.

O problema é que essa questão também passa pelo conceito de verossimilhança, abandonado pelos irmãos. Assim, é notável perceber no filme como corpos decepados por acidentes automobilísticos são substituídos por saltitantes bolinhas coloridas, e as cidades mais se parecem com uma Tóquio trezentas vezes mais abarrotada de néons. Desta forma fica claro que perceber os mínimos detalhes de uma corrida não era o foco.

Fica evidente também a coerência dos irmãos ao retratar as temáticas de seus filmes. Como se trata de um filme sobre corridas, todo e qualquer conflito é resolvido, ou tem ressonância na pista de corridas. Além disso, se ninjas brotam do nada e soam estranhos no meio do filme, basta lembrar que os Wachowski retratam as próprias corridas como uma batalha, literalmente. Nesse filme os carros não se digladiam apenas na dimensão do eixo x, mas também na verticalidade do eixo y, saltitando e dando piruetas no ar. A gravidade sempre foi muito inconveniente mesmo.

A orquestração do elenco também é muito boa. A vantagem de escalar atores prestigiados e consagrados se mostra eficiente em mais níveis do que somente conclamar o grande público para as filas do cinema. Atores da envergadura de John Goodman e Susan Saradon sabem não ceder a exageros, um risco grande nesse tipo de filme. E Emile Hirsch mais uma vez prova que é um dos maiores de sua geração. O garotinho Gorducho e o macaco Zequinha são um show a parte, me levando as gargalhadas sempre.

Por fim devo dizer que Speed Racer obviamente foi concebido para as famílias e as crianças, mas não é tarefa tão fácil para a molecada. A seqüência inicial, que mistura ações de vários pontos da linha do tempo da história, pode ser meio confuso para os pequenos. Entretanto oferece um deleite para os mais velhos.

Outra consideração, voltando à questão do uso dos efeitos especiais, diz respeito ao ‘raccord’, se posso colocar dessa maneira. Se próximo ao nascimento do cinema pairava a discussão sobre qual o melhor tipo de edição, uma que mostrasse toda a artificialidade do cinema e outra que escondesse as ‘pegadas’ da linguagem cinematográfica do público (o raccord), arrisco dizer que hoje em dia essa questão endereça-se aos efeitos especiais. É muito comum ouvir que os efeitos especiais são bons quando usados com parcimônia e contextualizados. Eu mesmo já afirmei tal coisa algumas vezes, os efeitos não devem aparecer, eles apenas devem tapar os buracos das insuficiências técnicas da filmagem convencional. Mas quem disse que tem que ser assim? Talvez esse filme possa ser enxergado como uma tentativa de mostrar o outro lado. Vamos esfregar efeitos especiais na cara do espectador logo no começo, e aí? Talvez a conclusão não seja das melhores, talvez os efeitos devam mesmo ficar no quartinho de empregada, mas isso só o tempo dirá.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Homem de Ferro

Logo que descobri que fariam um filme do homem de Ferro, fiquei preocupado. Nas histórias em quadrinhos (que lia avidamente quando adolescente), ele não era dos personagens mais simpáticos. Era um homem de meia-idade, rico que construiu uma armadura para combater o crime. Meio Batman só que sem todo aquele clima sombrio bacana. Pra completar, nos últimos anos o personagem das HQs resolveu ficar ao lado do governo dos EUA em torno de questões espinhosas, um direitista dos melhores, em suma. Mas devo reconhecer que mesmo assim ele era um senhor personagem, e Jon Favreau não deixou nada devendo para o pessoal da Marvel.

Sendo assim, o filme narra as peripécias de Tony Stark (Robert Downey Jr.), um playboy bilionário que divide seu tempo fornecendo armas para os americanos, freqüentando festas e dormindo com modelos. Escrito por Mark Fergus, Hawk Ostby, Art Marcum e Matt Holloway, o filme inicia com uma cena onde Stark é atacado por afegãos terroristas, demonstrando claramente que o primeiro ato do filme, dedicado a mostrar as motivações de Stark em se transformar no guerreiro de metal, será longo, e por isso, uma ceninha de ação no início mantém o público aquecido.

O risco de perder o ritmo em um filme de super-herói com um primeiro ato grande é arriscado. Mas felizmente isso não ocorre com Homem de Ferro. O diretor Jon Favreau ainda acerta em não imprimir muito melodrama nesse momento, algo que não combinaria com a personalidade de Stark. E fica claro que todo esse primeiro longa é dedicado a nos apresentar um personagem de uma nova franquia. Isso o prova a história extremamente simples (o que não significa demérito à princípio). É um filme mais sobre como a personalidade do Homem de Ferro foi engendrada em Tony Stark no tempo que ele esteve seqüestrado.

Isso posto, devo dizer que a simplicidade da história comprometeu o confronto final, que achei muito bobo e sem clímax. Além disso, essa mesma simplicidade desfavoreceu as personagens de Jeff Brigdes e Gwyneth Paltrow, que ficaram meio a deriva na história. A personagem de Gwyneth Paltrow ainda foi prejudicada pelo péssimo desempenho dramático da atriz.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Um Plano Brilhante



Um plano brilhante segue a vida da bem-sucedida Laura Quinn, a primeira executiva da London Diamonds, uma fictícia distribuidora de pedras preciosas. A vida de Quinn parece ser um eterno esforço para se colocar na frente dos homens e conseguir promoções que nunca se concretizam. Mas ela mergulha em mais problemas quando descobre o plano do Sr. Hobbs (Michael Caine), de assaltar o cofre da empresa usando-a como comparsa.

A maior força de Um Plano Brilhante reside na personagem feminina, exemplarmente mostrada como uma mulher forte que teve de abrir mão de família e filhos para alcançar sucesso, numa época onde essa escolha era necessária. Demi Moore consegue imprimir verdade no papel e nos oferece uma deliciosa interpretação de Laura Quinn. O faxineiro, Sr. Hobbs, também é um bom personagem, comendo pelas beiradas e revelando apenas as migalhas necessárias de seu plano, até que ele se concretize. Mas Michael Caine está apenas regular no papel, eficiente como sempre.

O problema principal foi ter começado o filme focando na questão feminina e não ter levado essa questão até as últimas conseqüências. Fica claro, obviamente, que a personagem de Demi Moore enfrenta um sem-número de dificuldades na sua escalada profissional. E também é claro o papel que isso desempenha na sua tomada de decisão de apoiar Hobbs, mas faltou ao filme delinear melhor a personagem feminina e aproveitar suas diferenças em relação ao universo masculino.

A ambientação dos protestos contra a Lon Di também está sobrando na trama, uma vez que não recebe atenção a partir de determinado momento. O diretor Michael Radford parece ter abocanhado um pedaço do roteiro (de Edward Anderson) maior do que podia engolir. A revelação do estratagema do Sr. Hobbs também é pífia, não impactando o espectador. Existe ainda um suspense sobre o destino da personagem de Moore (será presa ou não?) que é criado pelo uso de uma única frase no início do filme, um artifício nada elegante.

O que brilha de fato no filme é a interpretação de Demi Moore, e uma direção de arte muito inspirada e glamourosa. A maquiagem de Laura Quinn como uma velha senhora também merece grande destaque.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Quebrando a Banca


Entrei numa sala de cinema esperando um filme cool, mas saí um pouco decepcionado. Quebrando a banca narra a história de Ben Campbell (Jim Sturgess), um jovem gênio que tem como sonho cursar medicina em Harvard, mas suas finanças, ou melhor, a falta delas, é um empecilho gigantesco. Para tanto, ele se envolve com um grupo de alunos do MIT que passa os finais de semana em Vegas contando cartas. Por trás do grupo está o professor Micky Rosa (Kevin Spacey), o mestre na arte de sabotar cassinos e encher os bolsos com as trapaças de seus aluninhos super-dotados.

O filme é extremamente decepcionante. Especialmente do início do terceiro ato pro final. A subtrama de Ben e seus amigos nerds não recebe um tratamento adequado e se fosse meu filme ficaria de fora do corte final. Não precisamos dela para entender que o jovem é um pobre e inocente rapaz sendo corrompido pelo dinheiro. Além disso, as reviravoltas da trama são tão pífias que não empolgam nem um hiperativo superexcitado. Só pra completar o filme aproveita muito mal Laurence Fishburne, um excelente ator, e pra variar apresenta mais uma atuação medíocre de Kevin Spacey.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Awake - A vida por um fio

Depois de um longuíssimo período off, envolvendo vestibular para uma escola de cinema em Cuba e mudança de apartamento, cá estou eu de volta. Não dá pra falar de todos os filmes que vi nesse período porque estou apertadíssimo de trabalho, mas vamos ao último filme visto no cinema:

Justiça seja feita: Hayden Christensen é um péssimo ator, mas tem melhorado. Não tem um pingo de talento, mas sua trajetória no cinema tem sido melhor. E Terrence Howard, pra variar, rouba a cena novamente. Awake é um filme leve e divertido para o final de semana.

A história segue o jovem Clay Beresford, um bilionário na fila de transplante de coração. Ele ainda tem que driblar os ciúmes da mãe (Lena Olin) para ocultar o noivado com Sam Lockwood (Jéssica Alba), a secretária desta. Quando o bip avisando que um órgão está disponível para Clay, o rapaz ainda tem que enfrentar outro drama: está acordado durante a anestesia e descobre que seu médico e amigo (Terrence Howard) armou um plano para matá-lo.

Até certo ponto o roteiro de Joby Harold é muito eficiente. Não existem muitos diálogos expositivos e vemos as informações que precisamos saber onde elas sempre deveriam estar: nas ações dos personagens. Assim, a natureza do relacionamento entre Clay e Sam é mostrada aos poucos, e a interferência da mãe dele também.

Um outro ponto positivo são as cenas em que Clay, anestesiado, ‘interage’ com os outros personagens. Em nenhum momento ele aparece em uma cena que não fosse uma memória ou o ambiente onde seu corpo está realmente inserido, eliminando, dessa forma, uma possível irritante vertente espiritualista para a trama. E no momento onde essa vertente espiritualista ocorre, ela é sóbria e lógica.

Os pontos negativos ficam por conta das pistas e recompensas para o final surpresa, elas são fracas e não sustentam um clímax muito poderoso, deixando com que o espectador adivinhe o que vem em seguida. E considerando o começo do filme, imagino que o diretor desejava que o espectador inicialmente acreditasse na inocência do Dr. Jack Harper, mas se esse era o caso o trailer foi um fiasco total, já que no trailer somos apresentados ao plano do médico, sem cerimônias. Provavelmente Joby Harold raciocinou que teria uma surpresa ainda maior do que essa, errou. Além disso a tentativa de amarrar todas as pontas do roteiro entre si deixa a trama um pouco ‘forçada’.


segunda-feira, 24 de março de 2008

Ponto de Vista


Numa visita a Espanha, o presidente dos EUA (William Hurt), é baleado, e logo em seguida uma bomba explode. Contando com a experiência de várias das pessoas ali presentes o filme narrará esse mesmo pedaço da história várias vezes, sob diversas perspectivas. Seguindo de forma mais central Thomas Barnes (Dennis Quaid), um guarda-costas do presidente que já havia tomado um tiro por ele antes.

A principal fraqueza de Ponto de Vista é justamente o que mais deveria ter sido seu ponto forte. Quando o filme se detém sobre cada uma das personagens, para abordar a parcela de acontecimentos vistos por eles, esperamos que os eventos sejam mostrados integralmente. Queremos montar a história nas nossas mentes como um quebra-cabeça. Mas o diretor Pete Travis resolveu omitir pedaços cruciais da narrativa com a intenção desonesta de manter o suspense andando. Sendo assim, não é uma função do roteiro e da narrativa criar um mistério, mas o simples fato de que o diretor grita ‘corta’ em cenas cruciais. Ou seja, nem o ‘ponto de vista’, que era teoricamente o centro do filme, é uma questão relevante. É mais um exercício estilístico sem rigor ou sentido.

O filme, no entanto, consegue ser empolgante em algumas seqüências. As perseguições são muito bem decupadas e, embora a edição seja frenética demais, não é difícil de acompanhar essas cenas. Não chega aos pés de um Jason Bourne, mas é eficiente.

Um outro pecado fica por conta das gordurinhas em sobra da trama. Qual o papel do cinegrafista por exemplo? É uma personagem que teoricamente tem um papel fundamental em certo momento da história, mas que nunca ficamos sabendo qual é. Qual o sentido da primeira seqüência do filme? A produtora jornalística vivida por Sigourney Weaver aparece em cenas de intensa carga dramática mas que não tem compensação na progressão do filme. De início pensei que a personagem de Sigourney estava ali para nos dar o passado de Thomas Barnes, mas esse passado é reiterado umas três vezes durante a projeção, fazendo com que a pesquisa da jornalista seja em vão para o espectador compreender a personagem de Quaid.

Se Ponto de Vista fosse um pouquinho mais divertido e magro, seria a diversão perfeita para o final de semana.


segunda-feira, 17 de março de 2008

O Orfanato

Poucos filmes de terror podem ser seguidos da palavra ‘bom’ na mesma frase. E não estou fazendo uma crítica generalista. Tome por exemplo Os Outros. É um filme excelente, mas não sei se considero como um filme de terror excelente. Digo isso baseado num conceito que pode até não ser muito profundo ou teórico, mas que tem funcionado pra mim: filmes de terror tem que dar medo. Parece óbvio, mas nem todo mundo acha.

Sendo assim, Os Outros, tem suas principais qualidades apoiadas em questões estéticas (atuação, direção de arte, fotografia) que não são específicas da estética de terror. Mas O Orfanato é radicalmente diferente, mesmo contando uma história que é basicamente o senso-comum dos filmes de terror.

A trama, roteirizada por Sérgio Sánchez, gira em torno de Laura (Belén Rueda), uma mulher que viveu em um orfanato quando criança, e, depois de adulta, resolveu comprar o casarão que abrigava a instituição e criar um lar para crianças deficientes. Quando se muda para lá com o marido (Fernando Cayo), e o filho de 6 anos (Roger Príncep) que é adotado e portador do HIV, coisas estranhas começam a acontecer. Simon, que já possuía o hábito de conversar com amigos imaginários, próprio de crianças solitárias, ganha novos ‘amigos’ no casarão. Preocupada cada vez mais com a situação do filho, Laura vê sua vida virar de cabeça para baixo quando a criança desaparece sem deixar rastros. Agora, ela investigará cada aspecto da casa para solucionar o mistério do desaparecimento de Simon.

Juan Antônio Bayona consegue criar habilmente o que, em minha opinião, é fundamental para um bom filme de terror: atmosfera. A seqüência que mostra uma sessão espírita na casa é de arrepiar o cabelos (e conta com a presença magistral de Senhor Barriga!). O diretor só consegue esse efeito porque se demorou tempo suficiente na ambientação de seus personagens em sua vida cotidiana normal, dando tempo para que o público possa se acostumar e se afeiçoar a eles. Além disso o terror não é uma mera consequência de se usar o dolby surround sound, ou seja, o diretor não pretende assustar o público com estrondos repentinos, coisa que seria assustadora até se estivéssemos assistindo a Noviça Rebelde. Ao contrário, ele prefere incluir alguns sustos em situações altamente dramáticas e até previsíveis, numa demonstração clara de sofisticação e respeito a inteligência do público.

O filme só tem dois problemas: tem um ritmo irregular do meio para o final do segundo ato e o final, que é exageradamente extenso e didático, cortando um pouco do clima da cena anterior, muito mais forte.


sexta-feira, 14 de março de 2008

10.000 AC


Olha, eu tentei. Foi mal Roland Emmerich, mas eu tentei. Eu juro que entrei no cinema com o espírito preparado para um filme de ação com efeitos especiais. Nem mais nem menos, não esperava, por exemplo, por uma aguda análise do espírito humano na aurora da civilização. Nada disso. Só queria um bom filme de ação. E o filme realmente é de ação, só que está longe de ser bom.

A história narra as peripécias de D´Leh (Steven Strait) um jovem pertencente a uma tribo (que não sei o nome e, francamente, não vou pesquisar) e que morre de amores por Evolet (Camille Belle), uma outra membro da tribo que tem olhos azuis (?). A tribo espera, enterrados até os joelhos na neve sabe Deus porque, até que os mamutes apareçam e eles possam caçar. O problema é que paralelamente bárbaros tomam o lugar e raptam muitos membros da tribo, entre eles, obviamente, está Evolet. D´Leh fará de tudo para recuperar sua amada, inclusive atravessar todos os tipos de vegetação e solo disponíveis no planeta e lutar exclusivamente com animais já extintos.

O maior incômodo, entretanto, são as soluções deus ex machina em todas as esquinas da história. Aparentemente existiam centenas de profecias na pré-história e todas se encaixavam nos personagens principais desse filme. Os roteiristas (Harald Kloser e Roland Emmerich) usam coincidências e deus ex machina a exaustão, e, por fim, a inteligência do expectador é fatalmente atingida e perdemos e benevolência com o filme. Pra arrematar, o final traz a realização de uma outra profecia, desfazendo um evento grande sem a menor explicação.



quinta-feira, 6 de março de 2008

Rambo IV

Quando é requisitado para levar missionário à Birmânia, Rambo primeiramente se nega, mas, influenciado por uma missionária de rostinho bonito, ele finalmente cede. Mas quando os missionários são raptados por militares, ele sente o peso da responsabilidade e parte para resgatá-los. Stallone repete a ‘façanha’ de Rocky Balboa, atuando, dirigindo, produzindo e escrevendo o roteiro (um autêntico Charles Chaplin!).

A verdade é que Rambo IV é Kill Bill só que sem estilo, sem roteiro, sem boa fotografia, e sem boas atuações também. A semelhança com o filme de Tarantino, no entanto, é o banho de sangue promovido pelo senhor botox. Eu até entendo que Stallone tentou mostrar o horror da guerra em seu filme, mas falhou miseravelmente. Mostrar Rambo atirando em pessoas, cujas cabeças explodem como melancias depois de seus tiros, não é a melhor maneira de acentuar o caráter dramático da guerra. As cenas ficam tão exageradas que tendem para o cômico, daí os planos do diretor vão para o beléleu.

Além do mais, não existe dramaturgia em filmes como esse. No primeiro, lembro-me vagamente, ainda existia. Rambo era um personagem de fato, queria coisas, desejava, etc. Nesse, temos a impressão de que Rambo é só alguém que executa coisas na tela. Não há conflitos muito além de ‘entrar-matar-sair’. Stallone só acerta quando não exagera e superestima seu personagem. Sendo assim, nesse filme não vemos Rambo fazer coisas extraordinariamente grandiosas, como no passado. Ele é simplesmente um vovô da selva, musculoso e que ainda consegue atirar bem com seu arco e com metralhadoras antiaéreas.

terça-feira, 4 de março de 2008

Jogos do Poder

O congressista Charlie Wilson se interessa pelo conflito armado no Afeganistão durante o início da década de 80. Percebendo-o como uma verdadeira frente de combate ao comunismo, ele (Tom Hanks), Joanne Herring (Julia Roberts) uma socialite texana e Gust Avrakotos (Philip Seymor Hoffman), um agente da CIA, farão de tudo para aumentar os incentivos econômicos dos EUA para o pequeno país.

Jogos do Poder é a crônica de como os Estados Unidos cavaram a própria sepultura com o Oriente médio e Afeganistão. Além de um olhar um tanto quanto cínico sobre a própria guerra, como não poderia deixar de ser. Apesar de lançar um olhar crítico para os dois lados da cortina de ferro, fica bastante claro que a crítica ao comunismo é mais pesada. Na verdade a crítica é mais dirigida aos comunistas russos do que ao comunismo em si.

Também não há como discordar que as atrocidades cometidas pelos soldados russos ao povo afegão tinham que ser impedidas a qualquer custo. Mike Nichols joga com os valores da guerra a todo momento. Sacraliza a guerra no discurso dos personagens para questioná-la com música sacra enquanto os soldados atiram em velhos e crianças pelas cidades. Todos falam em nome de Deus, todos matam em nome de Deus.

O filme só peca do meio para o final, quando resolve assumir uma postura excessivamente moralista. O discurso sobre Deus, praticamente inexistente na primeira metade do filme, começa a ficar cada vez mais presente. E, embora tenha entendido as implicações de se abordar esse assunto, não acho que o cineasta soube aproveitá-lo coerentemente. Ao final, Nichols começa a ser excessivamente didático também, explicando quase explicitamente qual é seu ponto de vista ao expectador.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Sangue Negro


Sangue Negro narra a história de Daniel Plainview, um ganancioso prospector que busca a qualquer custo conquistar cada vez mais poços de petróleo. Instalando-se numa pequena cidade com seu filho H.W., Daniel enfrentará a oposição de Eli Sunday, um jovem pastor que tem sua própria definição de ganância. Escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson, como todos os seus outros filmes, Sangue Negro é mais uma obra-prima deste genial diretor.

A estruturação dos personagens é perfeita. A relação estabelecida no roteiro, entre Plainview e Sunday é, a primeira vista, de espelhamento. Quando se sentam pela primeira vez à mesa, pais e filhos conversam sobre a venda da propriedade dos Sunday. Nesse diálogo percebe-se claramente que quem controla aquela casa é Eli Sunday, de um lado temos um filho que exerce forte influência sobre o pai e de outro um pai que exerce forte influência sobre o filho. É como se Eli e Plainview fossem reflexos num espelho, um sendo o lado invertido do outro. Muito embora o centro da personalidade de ambos seja o poder e ambição.

No caso de Eli fica claro que sua influência na igreja e na comunidade é o que ele mais preza. E Plainview faz questão de, literalmente, jogá-lo na lama toda vez que pode, apenas para provar que é o mais poderoso da região. Sua conquista de poços de petróleo também não parece ser uma simples questão de dinheiro. Plainview quer o que o dinheiro proporciona, o poder. Só lhe interessa isso: poder, dessa forma, seu desejo de dominação territorial mostra-se praticamente animalesco.

Mas o personagem não é tão plano assim, e Daniel Day-Lewis não poderia representar melhor essas incoerências. Em determinado momento da trama Plainview revela seu desejo de se isolar do mundo, ele demonstra todo seu desprezo pela humanidade. Daniel não é capaz nem de estabelecer um relacionamento normal com outro ser humano. Quando descobre que uma criança está sendo maltratada Plainview dá presentes a ela, e a aborda de uma maneira brusca, assustando a menina. Nem um traço de sensibilidade ao lidar com uma criança.

O problema é que ele não parece tão capaz de se distanciar assim de todos. Tanto é que se conecta muito facilmente com seu recém aparecido irmão. Acredito que a questão de Plainview é que ele quer se relacionar com alguém que seja exatamente como ele, que seja uma espécie de clone seu. Quando seu filho deixa de representar essa possibilidade ele rapidamente aposta todas suas fichas em seu irmão. Um desenho perfeito de alguém que tem a ganância como o epicentro da vida, alguém que não consegue ver nada além de si mesmo no mundo.

Uma outra coisa curiosa que notei no filme foram as referências a 2001: Uma Odisséia o espaço. Tais como os primeiros segundos de tela preta com trilha sonora esquisitíssima, seqüência inicial longa sem diálogos e um dos plano finais do filme. Eu li em algum lugar que essas referências nada acrescentariam no filme, em termos narrativos, seriam apenas ‘homenagens’. Mas eu discordo.

Usando as referências de 2001, PTA traça um paralelo de Plainview com a história do homem narrada no filme de Kubrick. O personagem de Plainview, à medida que enriquece, deixa de ser humano. Ele faz o caminho inverso dos macacos em 2001. A aurora do homem não existe em Sangue Negro, ao contrário, a ganância pelo petróleo faz com que o personagem principal mergulhe cada vez mais na escuridão do desumano. Um dos planos finais o prova. Quando Daniel Day-Lewis, encurvado como um macaco, usa um pino de boliche como arma, num enquadramento similar ao usado em 2001 na famosa cena do osso, ele completa seu ciclo evolutivo inverso. ‘I’m finished’ ele conclui.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Filmes do Final de Semana

O Som do Coração

A princípio inicia-se como um Oliver Twist musical. Mas depois perde as características de um bom melodrama para ceder a cenas pobres. A única coisa que segura o filme são algumas atuações interessantes, Terrence Howard, como um assistente social engajado é brilhante em seu papel tão pequeno. Keri Russel também se sai suficientemente bem como a mãe de Evan. Já Freddie Highmore não se sai tão bem na pele de Eva Taylor/ August Rush, muito embora tenha gostado do seu jeitinho frágil em Em busca da Terra do Nunca, e também tenha achado que ele se saiu muito bem em Um bom Ano, Freddie não repete a mesma atuação aqui. Tanto é que é fácil roubar-lhe a cena, a garotinha negra na seqüência da igreja o prova facilmente. Mas nem Robin Williams está em sua melhor performance neste filme.

O Bebê de Rosemary

Como com qualquer clássico, nunca é demais assistir mais uma vez. Foi minha segunda, e desta vez pude apreciar melhor os aspectos dramatúrgicos. O casal principal (formado por Mia Farrow e John Cassavetes) é fenomenal e tem um química fantástica. Os velhinhos também são um show a parte e oferecem um interessante ponto de vista cômico sobre a história, tão densa e macabra. Mas além de tudo isso o que mais me chama atenção são os sonhos de Rosemary, seus pesadelos e alucinações. Não houve melhor década para pesadelos no cinema do que a década de 60, e dizem que as drogas não trazem benefícios...

Boas curiosidades sobre o filme aqui.

Mandando Bala

Tenho fases, e em algumas delas, por acaso, quero sempre assistir filmes de ação. Mas não sei se é porque não estou numa dessas fases que odiei esse filme. Talvez não. Talvez eu tenha odiado porque ele é ruim mesmo. A princípio simpatizo com o gênero: comédia com ação, especialmente quando eles não se levam a sério demais. Ponto para Mandando Bala, que não se leva a sério em nenhum minuto. Também não me incomoda falta de veracidade em cenas de ação, outro ponto para Mandando Bala, que atira as leis da física pela janela. O problema é que eu gosto de roteiro sabem? E não estou falando de grandes estruturas não, algo simples já ta bom. A impressão que me deu foi que Mandando Bala foi construído em cima de das seqüências de ação e a ‘história’ foi desenvolvida depois. Sendo assim, sempre que os personagens perseguidos (no caso Clive Owen, Monica Bellucci e um bebê) mudam de lugar, os bandidos que os perseguem aparecem momentos depois, sabe-se lá como, atirando aos borbotões. E o filme é basicamente isso: variações de seqüências de ação, variando os locais e as atividades do personagens (por exemplo: ‘Ah vamos fazer uma que eles estão transando no meio do tiroteio?’). Sem nada com o que trabalhar Paul Giamatti também foi resumido a um vilão que diz o texto e faz caretas. Pra piorar o placar o filme ainda assume um tom levemente moralista no final, aí não dá. Nesse gênero eu ainda fico com True Lies. Parafraseando Smith: Sabe o que eu odeio? Filmes com uma trilha sonora tão presente e tão forte que você não tem nem dois minutos sem música metal pra respirar.





terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Cloverfield - (subtítulo nacional ridículo que não vou colocar aqui)

Se você gostou de A Bruxa de Blair, como eu, você provavelmente adorará Cloverfield, mas se não gostou, então, bem, acho melhor ver outro filme. Saiba, no entanto, que Cloverfield é muitas vezes superior a Bruxa de Blair, bom no nível de criar dificuldades para que o espectador mantenha sua urina na bexiga. Não leve a sério, é entretenimento do princípio ao fim, sem cessar, literalmente(!).

A trama acompanha um grupo de amigos que organizam uma festa de despedida para Rob, que irá de mudança para o Japão, a terra dos monstros gigantes, para um novo emprego. Os tais amigos são surpreendidos por tremores de terra, barulhos ensurdecedores e explosões. Um gigantesco monstro está invadindo Nova Iorque.

O grande lance de Cloverfield é contrariar Hitchcock. O roteiro e o diretor adotam o ponto de vista dos personagens (literalmente, novamente), pois toda a trama é captada por uma filmadora caseira de um deles. Dessa forma os espectadores conhecem a real ameaça à medida que os personagens também a vivenciam. E nunca se pode esperar uma torrente de informações quando você está numa metrópole arrasada por um monstrão gigantesco nas últimas duas horas, certo? Por isso a palavra de ordem foi revelar ‘aos poucos’, algo em que J.J. Abrams (o produtor executivo do filme e da série Lost) é um irritante mestre. Traçado esse terreno só resta ao espectador torcer para que os personagens fiquem vivos depois de iniciados os ataques, e a cada escolha que fazem nós também estremecemos, porque nada é garantido quando se sabe pouco. Como fazer previsões se não temos um plano-geral da trama?

Diferentemente de Godzilla e sua contraparte americana (king Kong e derivados) o filme não se delicia em mostrar amplos planos da figura gigantesca em todos os seus detalhes. Quem está correndo de uma monstruosidade dessas preocupa-se menos com suas características estéticas do que com suas características destrutivas, geralmente.

As associações com o 11 de Setembro também foram bastante interessantes, me lembrei particularmente na cena da onda de poeira deixada pelo monstrão em sua destruição de prédios. Os americanos estão aprendendo com os japoneses a retratar sua própria história através de monstros gigantes.

Só me irrita que tudo quando é catástrofe tenha a estátua da liberdade como colateral. A coitada sempre toma uns sopapos, não importa se é um nevasca, furacões, onda magnética capaz de causar mutações ou um monstro gigante.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Onde os fracos não tem vez

Os irmãos Coen criam um maravilhoso western moderno, nesse favorito ao oscar de melhor filme em 2008. O filme, uma metáfora para a degradação moral atual, funciona também como uma saga de suspense, drama e comédia, enfim, tudo dos Coen está lá. Os personagens interioranos e caipiras também estão lá, assim como em Fargo, Gosto de Sangue, etc, etc.

A história segue Llewelyn (o excelente Josh Brolin), quando este acha um cenário de um massacre no que parecia ter sido uma negociação de drogas. Seguindo os rastros da destruição Llewelyn encontra mais um cadáver e uma maleta recheada de dinheiro. Ele volta para casa com o dinheiro, mas a noite é inquietado por um pensamento, algo que deixara de fazer. Movido por um gesto nobre ele volta ao local do massacre, mas, desta vez é surpreendido. É assim que a história tem início.

Os donos do dinheiro o querem de volta, obviamente, a todo custo, e para isso colocam o assassino chamado Chigurh atrás de Llewelyn. O assassino é vivido por Javier Barden, numa atuação mais do que perfeita. Tommy Lee Jones vive o xerife Ed Tom, que deseja a todo custo parar o assassino e sua trilha de sangue, e proteger Llewelyn.

A história se desenvolve a partir daí, ou, melhor dizendo, os personagens se desenvolvem daí. Não existem muitas explicações em termos de trama, como, por exemplo, a ligação entre os donos do dinheiro e Chigurh, já que não há nada implícito que os conecte. O filme também não oferece informações sobre a morte de um desses personagens, que acontece subitamente próximo do final. O paradeiro do dinheiro também perde importância no meio do caminho. A questão para os Coen é transformar os personagens em ensaios vivos da temática principal do filme: a violência. E acredito que também a ganância, ainda que essa segunda temática tenha menos importância. Vale lembrar no entanto, que bem no final, quando um dos personagens oferece dinheiro a um adolescente, em troca de uma camisa, o menino responde cordialmente que não pretendia receber dinheiro em troca de sua ajuda. Mas assim que dá as costas o outro menino também presente na cena requer parte da recompensa. A cena da camisa ocorre duas vezes no filme, aliás, com conclusões semelhantes.

Mas não sei se concordo com o ponto de vista do filme, de que o mundo em que vivemos não reserva mais lugares para os ‘velhos’, os que teimam em sonhar nostalgicamente com épocas douradas e pacíficas. Acredito também que os próprios irmãos Coen não crêem tão inocentemente nessa hipótese. Afinal, escolher uma estética western para esse filme cria obviamente a característica de remeter a um tempo passado em que a violência era a lei. Por mais que naquela época houvesse um código moral implícito calcado na masculinidade e ‘bravura’.

Creio mais num Chigurh que encara o mal, mas o mal humano, este sim, atemporal e sempre presente. Todavia, há que se acreditar que críticas podem ser feitas a falta de atitude humana em aplacar esse mal, em incentivá-lo cada vez mais. Mas não acho, de maneira nenhuma, que vivemos em um tempo de recorde de imoralidade e violência. A Roma antiga talvez não me deixaria mentir. A barbárie da Idade Média também não testemunha a favor de tal idéia. Lembro-me sempre, quando este assunto vem a tona, da frase do personagem Remy em Invasões Bárbaras, quando conversando com uma freira ele diz que a igreja católica massacrou milhões de índios no século XVII, muito mais do que as mortes do século XX. Isso tudo a machadadas, sem bombas atômicas e AK-47. A verdade é que o espírito humano não precisa de ajuda para a violência, mas o avanço das leis e da racionalidade o refreiam. Não somos perfeitos, mas quem sabe um dia não estejamos mais próximo? É no que quero acreditar.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Juno


Juno é o Pequena Miss Sunshine do ano, sabe?, aquele filme com cara de indie que todo mundo diz ‘Ooh, how cute!’. E é muito bonitinho mesmo. Narra a história de Juno, uma adolescente de 16 anos que se descobre grávida após uma única transa com seu namorado nerd. Após a decisão de manter a gravidez ela inicia um périplo para achar pais adotivos para o futuro pimpolho.

A maior força do filme está no roteiro e nas interpretações, é o que dá todo o ‘cuti-cuti’ do longa. Tudo é muito deslocado, o pai da criança, também um adolescente, vive num quarto infantil onde a cama tem forma de carro. Juno, na excelente interpretação indicada ao Oscar de Ellen Page, é também deslocada. Fala em momentos inconvenientes, solta piadas a todo momento e age seguindo uma maturidade que sabemos não ser autêntica. Até a comicidade do filme é deslocada, criando um clima estranho de não saber exatamente de quais piadas devemos rir, ou se a situação é assim mesmo tão engraçada. O roteiro consegue transpor um pouco do deslocamento adolescente para o público.

Outra coisa que o roteiro não admite é representar seus personagens de maneira ‘cinematográfica’ ou ‘literária’ demais. Dessa forma, quando os adolescentes conversam eles o fazem como adolescentes de verdade, quando o pai de Juno dá conselhos a filha não espere nada que venha do oráculo de Delfos ou frases de Marcel Proust, ‘Procure alguém que goste de você como você é’, e mais nada. Tudo soa muito natural, a música que Juno canta com Bleek no final do filme aparenta uma breguice e romantismo adolescente, e é tudo isso mesmo.

A vantagem é que Jason Reitman não acha que precisa dar grandes densidades filosóficas para seus personagens para que a história funcione. Juno é assim, como várias outras garotas, e todas essas outras garotas dariam excelentes histórias.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Meu nome não é Johnny

Adoro quando assisto um filme nacional com a sala lotada, acredite se quiser. Cheguei de mansinho, pensando “Ah, é filme nacional, vou pra fila em cima da hora, vai estar vazio”. Felizmente, um ledo engano. Tinha gente saindo pelo ladrão, e dentro da sala não estava diferente, pessoas sentadas no chão.

E elas não foram ludibriadas, Meu Nome Não é Johnny oferece uns bons minutos de diversão e bom cinema. O filme narra a história de João Guilherme Estrella (Selton Mello), um traficante de classe média que atuou na década de 80 e 90 no Brasil. A história acompanha desde a infância até a prisão de João Guilherme (e não é spoiler, isso é mostrado logo no começo). Baseado em fatos reais, o filme consegue captar um dos fenômenos mais surpreendentes do mundo moderno, e que talvez tenha escapado de olhares mais incautos.

A história consegue trazer à tona a forma desiludida com que os jovens pós década de 70 enxergam o mundo. Além de oferecer uma interessantíssima radiografia da maneira errônea como os pais da classe média alta tendem a tratar seus filhos. O exemplo mais claro é a forma como João Guilherme refere-se ao próprio pai, “ele é uma espécie de vizinho, fica lá no quarto dele”. Enquanto o filho dá festas todos os dias, consumindo grandes quantidades de cocaína.

A classe média tende a ensinar os filhos a portarem-se como reis, e a enxergar o mundo como um grande banquete de onde podem desfrutar de tudo, sem exceções. Em determinado momento do filme, quando está em julgamento, João Guilherme diz que antes não fazia distinção entre lei e não-lei, não era uma questão de afrontar a lei, ela simplesmente não existia.

Mas para além do contexto social-familiar Meu Nome não é Johnny é extremamente engraçado e envolvente. A visão cínica e sarcástica que o filme oferece da polícia é o ponto alto da comédia na trama.

Pra encurtar a história, Meu Nome Não é Johnny não é a história de um bandido, pelo menos não no sentido restrito da palavra. É a história de um menino que só começou a crescer quando chegou ao fundo do poço.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Planeta Terror


Planeta Terror é a primeira parte de Grindhouse, dobradinha de médias-metragens feitos por Robert Rodriguez e Quentin Tarantino. Grindhouse eram sessões costumeiras nas décadas passadas, nos EUA. Dois filme de terror do tipo z eram exibidos para platéias pouco exigentes.

No Brasil - também conhecido como Jaculândia - a distribuidora dos filmes resolveu não apostar na recriação dos Grindhouses. Veremos os filmes separadaos mesmo, isso porque eles foram lançados juntos em Abril nos EUA, e já saíram em DVD por lá.

Anyway, quem não assistir esse filme imbuído do maior dos espíritos de galhofa vai se dar muito mal. E é um filme divertidíssimo viu, Robert Rodriguez acertou a mão em cheio, recriando o espírito de um filme de terror B. A história é simples: uma cidade sofre um atentado de zumbis carniceiros, que foram criados a partir de um gás de uso militar. A esperança reside em apenas alguns, que são imunes ao tal gás e desejam a todo custo fugir dos monstros. No meio disso tudo você pode ver sangue jorrando aos montes, rostos deformados, ranhuras na película do filme, mulheres sensuais se exibindo, armas poderosas sendo disparadas, etc. A vontade do diretor de fazer o público sentir a experiência de filmes B é tamanha, que ele finge que um dos rolos se perdeu, e ficamos sem saber alguns detalhes da trama. Exatamente como as platéias de antigamente, em cinemas pouco organizados e meticulosos.

Dois pontos negativos: não acho que o casal principal da trama tenha química suficiente para convencer como casal, e, não gostei de Freddy Rodríguez como El Wray, acho que ele também não é gabaritado suficientemente para ser o herói estereotipado que um filme como esse pede. Já Rose McGowan convence como a striper com perna de metralhadora que ilustra o pôster. E Marley Shelton é ótima como a Dra. Dakota, com suas mãos adormecidas na maior parte do tempo. Detalhes para as participações de Quentin Tarantino como um soldado tarado e Fergie, do The Black Eyed Peas, como uma motorista que é devorada pelos zumbis.

A Lenda de Beowulf


Filmes como a Lenda de Beowulf sempre despertam aquelas discussões intermináveis, será que um dia a animação vai substituir atores de verdade? Obviamente que não, respondem todos em coro. Mas, por que não?

Minhas opiniões são mais filistéias, eu acredito que a possibilidade de computação gráfica substituir atores é grande, mas num futuro mais distante. Acredito também que a maioria das pessoas pensa que o 3D vai ser usado como uma ferramenta e não como peça central porque acreditam que nós, os humanos, somos insubstituíveis. Não sei não, isso me parece falso.

A maioria alega que os ‘bonecos’ 3D não têm brilho nos olhos, a boca não se move adequadamente quando falam, etc. Estão certos, pelo menos por enquanto. Mas daqui uns 15 ou 20 anos acho que essa situação vai mudar muito, e não vai ter ninguém que saiba diferenciar um de outro.

É claro que uma produção assim custa muito tempo e dinheiro. Não é nada viável fazer um filme do tipo “ela morava só em um apartamento com seu cachorro” em 3D. Demoraria horrores, um tempo mais do que suficiente pra filmar em carne e osso, editar, fazer marketing, distribuir e sair em DVD.

Mas mesmo assim acho que é viável em muitos casos, e daqui um tempo, se a tecnologia permitir uma diminuição no tempo de produção, vai ser o futuro. A maior parte do orçamento de um filme com gente famosa em Hollywood é com cachês. A maior parte mesmo. Um filme com Julia Roberts, Tom Cruise e Brad Pitt juntos deve custar uns 3 bilhões de dólares, mesmo que seja a história de três pessoas confinadas numa caixa de papelão. E isso pra ter que aturar coisas do tipo: “Quero um camarim com m&ms só vermelhos!”, “Não fale comigo durante a filmagem inteira, me desconcentra”, “ Faz o meu pipi ser maior”, etc, etc. É por essas e outras que eu acho que os ‘bonecos’ são o futuro, eles são o autêntico gado do Hitchcock.

É claro que eu também acho que 3D muito realista apresenta problemas para a linguagem dos desenhos animados. Mas não no caso de Beowulf, pois a proposta dele é justamente essa. Acho mais preocupante em desenhos animados propriamente ditos, onde existe uma preocupação extremamente realista com texturas e movimentos, paralelamente a linguagem exagerada dos desenhos.

Mas e quanto ao filme propriamente dito?

Eu gostei de A Lenda de Beowulf. É uma aventura maravilhosamente ambientada e contada. A direção de Robert Zemeckis erra a mão um pouco, em ambiente 3D não existem limites para a câmera, e isso é um pouco preocupante. Se o diretor não se cuidar o filme pode parecer uma apresentação de maquete eletrônica, onde a câmera dança o tempo todo pela tela. Zemeckis perde pontos nesse quesito, a minha tensão durante o filme era esperar que ele enfiasse a câmera pelo buraco de alguma narina só para fazer com que ela saísse pelo outro. Mas no geral sua câmera é bacana, ele cria imagens e movimentos muito bonitos. Aliás, ele é fã de pequenas trucagens há muito tempo, em Contato, por exemplo, eu me lembro sempre da cena onde a pequena Ellie corre ao armarinho de remédios para ajudar o pai. Portanto, esse é um solo seguro para Zemeckis, eu só podaria o excesso de movimentos grandes de câmera. Ah, eu também cortaria um monte de objetos que quando caem descrevem rodopios intermináveis no ar.

Quanto ao roteiro de Neil Gaiman (Ave!) e Roger Avary eu diria que é eficiente. A interrupção da narrativa logo no início, pelo próprio Beowulf para narrar um flashback, parece cortar o fluxo da história ao meio. Mas a história narrada se mostra importantíssima para entendermos a personalidade do herói, e dos eventos que se desenrolarão. Eu só acho que o personagem de John Malkovich é mal aproveitado pela história, fazendo uma oposição muito pobre ao herói. Fora isso, Beowulf é composto excepcionalmente, ele emerge como um herói falho e vaidoso, mas que demonstra toda a bravura que as canções dos bardos lhe atribuem.