segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

A Lenda de Beowulf


Filmes como a Lenda de Beowulf sempre despertam aquelas discussões intermináveis, será que um dia a animação vai substituir atores de verdade? Obviamente que não, respondem todos em coro. Mas, por que não?

Minhas opiniões são mais filistéias, eu acredito que a possibilidade de computação gráfica substituir atores é grande, mas num futuro mais distante. Acredito também que a maioria das pessoas pensa que o 3D vai ser usado como uma ferramenta e não como peça central porque acreditam que nós, os humanos, somos insubstituíveis. Não sei não, isso me parece falso.

A maioria alega que os ‘bonecos’ 3D não têm brilho nos olhos, a boca não se move adequadamente quando falam, etc. Estão certos, pelo menos por enquanto. Mas daqui uns 15 ou 20 anos acho que essa situação vai mudar muito, e não vai ter ninguém que saiba diferenciar um de outro.

É claro que uma produção assim custa muito tempo e dinheiro. Não é nada viável fazer um filme do tipo “ela morava só em um apartamento com seu cachorro” em 3D. Demoraria horrores, um tempo mais do que suficiente pra filmar em carne e osso, editar, fazer marketing, distribuir e sair em DVD.

Mas mesmo assim acho que é viável em muitos casos, e daqui um tempo, se a tecnologia permitir uma diminuição no tempo de produção, vai ser o futuro. A maior parte do orçamento de um filme com gente famosa em Hollywood é com cachês. A maior parte mesmo. Um filme com Julia Roberts, Tom Cruise e Brad Pitt juntos deve custar uns 3 bilhões de dólares, mesmo que seja a história de três pessoas confinadas numa caixa de papelão. E isso pra ter que aturar coisas do tipo: “Quero um camarim com m&ms só vermelhos!”, “Não fale comigo durante a filmagem inteira, me desconcentra”, “ Faz o meu pipi ser maior”, etc, etc. É por essas e outras que eu acho que os ‘bonecos’ são o futuro, eles são o autêntico gado do Hitchcock.

É claro que eu também acho que 3D muito realista apresenta problemas para a linguagem dos desenhos animados. Mas não no caso de Beowulf, pois a proposta dele é justamente essa. Acho mais preocupante em desenhos animados propriamente ditos, onde existe uma preocupação extremamente realista com texturas e movimentos, paralelamente a linguagem exagerada dos desenhos.

Mas e quanto ao filme propriamente dito?

Eu gostei de A Lenda de Beowulf. É uma aventura maravilhosamente ambientada e contada. A direção de Robert Zemeckis erra a mão um pouco, em ambiente 3D não existem limites para a câmera, e isso é um pouco preocupante. Se o diretor não se cuidar o filme pode parecer uma apresentação de maquete eletrônica, onde a câmera dança o tempo todo pela tela. Zemeckis perde pontos nesse quesito, a minha tensão durante o filme era esperar que ele enfiasse a câmera pelo buraco de alguma narina só para fazer com que ela saísse pelo outro. Mas no geral sua câmera é bacana, ele cria imagens e movimentos muito bonitos. Aliás, ele é fã de pequenas trucagens há muito tempo, em Contato, por exemplo, eu me lembro sempre da cena onde a pequena Ellie corre ao armarinho de remédios para ajudar o pai. Portanto, esse é um solo seguro para Zemeckis, eu só podaria o excesso de movimentos grandes de câmera. Ah, eu também cortaria um monte de objetos que quando caem descrevem rodopios intermináveis no ar.

Quanto ao roteiro de Neil Gaiman (Ave!) e Roger Avary eu diria que é eficiente. A interrupção da narrativa logo no início, pelo próprio Beowulf para narrar um flashback, parece cortar o fluxo da história ao meio. Mas a história narrada se mostra importantíssima para entendermos a personalidade do herói, e dos eventos que se desenrolarão. Eu só acho que o personagem de John Malkovich é mal aproveitado pela história, fazendo uma oposição muito pobre ao herói. Fora isso, Beowulf é composto excepcionalmente, ele emerge como um herói falho e vaidoso, mas que demonstra toda a bravura que as canções dos bardos lhe atribuem.

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