quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A Noite Americana

Nenhum filme é uma declaração de amor ao cinema tão escancarada e franca como A Noite Americana. Truffaut chega bem próximo do piegas em alguns momentos, mas tudo bem, o cinema também chega às vezes, e ninguém está reclamando. Afinal de contas um apaixonado sempre tende a exageros, e se uma única coisa pode ser dita de Truffaut é que ele era um eterno apaixonado pelo cinema. É um daqueles casos em que o cinema literalmente salva a vida de alguém.

O filme traça a história de Ferrand (vivido pelo próprio Truffaut), um diretor lutando a todo custo para terminar seu filme ‘Je vous presente Pamela’. Entre as muitas dificuldades que Ferrand enfrenta estão os problemas com os atores, entre as principais. Vão da imaturidade de um ator (Jean-Pierre Léaud) e suas paixões infantis, à instabilidade emocional de uma atriz inglesa (Jacqueline Bisset) até a morte de um dos principais nomes do elenco (Jean-Pierre Aumont).

O filme em si é uma aula de cinema. Podemos acompanhar todas as etapas da produção de um filme e parte da pós-produção, quando o diretor e a equipe assistem pedaços recém editados da obra. Uma coisa interessante a se notar é que Truffaut compôs um diretor que escreve o roteiro enquanto o filme já está em processo de produção, algo no mínimo raro, embora existam casos parecidos. Acredito que o diretor francês assim o fez para que o espectador pudesse apreciar também essa importante etapa do processo de criação de um filme, uma vez que toda a história se daria apenas na etapa de filmagem. Como excelente roteirista que era, Trufffaut não deixaria esse importante pedaço de fora de sua narrativa.

Uma outra forma de mostrar o amor e a dedicação sacerdotal ao cinema, é a forma como a própria equipe se relaciona com o cinema. Alphonse (Léaud) em qualquer folguinha diz que vai ao cinema. Em outro momento a equipe quase toda marca de ir ao cinema, mas a assistente de direção no último momento não pode ir, pois tem que ajudar o diretor. Enquanto está no quarto escrevendo o roteiro do dia seguinte, Ferrand confere no jornal o que está sendo exibido nos cinemas da cidade, concluindo que Godfather está arrasando. É uma equipe que preenche seu dia (e muitas vezes a noite também!) com cinema, horas e horas de filmagem, ensaios, construção de cenários e figurinos, e nas horas vagas o que eles fazem? Vão ao cinema. O cinema é, enfim, um trabalho do qual eles não querem descanso, não querem se ver livres e distantes dele.

Outra característica a se apreciar é a enxurrada de citações e referências a filmes clássicos que Truffaut salpica no longa. Dentre todas essas há uma cena memorável, onde Ferrand escuta parte da trilha composta para o filme por telefone, enquanto desembrulha um pacote de livros que comprara. Uma historiadora de Truffaut (cometi a indelicadeza de esquecer o nome dela), comentando sobre essa cena nos extras do DVD, salienta para o fato de que a trilha que Ferrand escuta ao telefone é originalmente de “Duas inglesas e o amor”, um filme de 1971 também de Truffaut. E como este último é uma história que, obviamente, fala sobre o amor, ao usar essa canção em A Noite Americana, na cena onde justamente serão mostrados em plano de detalhe a capa de vários livros sobre grandes diretores, fica mais do que clara a intensa paixão que Truffaut nutria pelos antigos mestres.

Aliás, dos egressos da Nouvelle Vague Truffaut parece ser o que mais se identifica com o cinema americano. Em seu livro, seminal, Hitchcock/Truffaut Entrevistas, essa identificação é muito transparente quando o diretor francês interroga Hitchcock a respeito dos filmes deste último. Truffaut é também o diretor francês do período Nouvelle Vague que é, de certa maneira, mais acessível para o grande público. Pegue alguém que se interesse por cinema minimamente, e o coloque para assistir Os Incompreendidos e Acossado, logo depois compare a opinião desta pessoa.

A Noite Americana ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1974 e concorreu no ano seguinte em mais três categorias (diretor, melhor atriz coadjuvante (Valentina Cortese) e melhor roteiro original. O nome se refere a uma técnica da fotografia que simula a noite, gravando as cenas durante o dia.

Trailer aqui. Já neste blog o autor faz uma comparação (quase inevitável) entre A Noite Americana e Perdas e Danos de Louis Malle, e além disso a alma caridosa teve a paciência de montar todas os pedaços de Je vouis presente Pamela neste vídeo.

O último prego no caixão

Pronto, agora é oficial: o HD DVD se junta ao Laser Disc e a fita cassete, bem como os disquetes, no paraíso das mídias extintas. A Universal e a Paramount/Dreamworks deram, ontem e hoje respectivamente, declarações de que vão migrar para o formato Blu-Ray. As duas eram as únicas que apoiaram o formato HD DVD com exclusividade. Ponto para o consumidor que não vai ter que possuir dois aparelhos distintos para assistir em um os filmes da Warner e em outro os filmes da Dreamworks.

Além disso os discos Blu-Ray comportam mais dados. Isso significa uma compressão melhor para os filmes (sem aqueles pixels nojentos aparecendo na tela toda vez que o fundo é preto) e mais possibilidades de extras melhores. Uhuu! Agora que vamos engordar cada vez mais os cofres da Sony é só esperar para os bichinhos baixarem de preço.

Vá em paz HD DVD, vá em paz. Tadinho, mal nasceu e já foi pro brejo.

Tanx Omelete.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Viva la revolución!

Clique aqui e acredite se quiser. Sim, Fidel Castro já foi ator, e na velha Hollywood (e sim, Hollywood fica nos EUA, a nação demoníaca). Estava lendo sobre a renúncia do barbudão e encontrei este post no Ilustrada no Cinema. Isso tudo me fez lembrar dos filmes que eu já assisti que se passam em Cuba.

Morango e Chocolate é um excelente longa vencedor de vários prêmios internacionais, e, mais importante, foi um dos primeiros filmes a vencer a barreira pós-revolução e atingir outros países. Aborda o relacionamento conflitante e opositor de dois jovens, David, um entusiasta da revolução e Diego, um homossexual que sofre constantes discriminações impostas por seu país. O filme mostra um pouco do cotidiano dos cubanos e não só questões política puramente. Foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro (!) e venceu o Urso de Ouro em Berlim. Recomendadíssimo.

Muito embora Antes do Anoitecer não tenha sido filmado em Cuba e seja quase todo falado em inglês, pode-se dizer que retrata bem o cotidiano do poeta cubano Reinaldo Arenas. O filme mostra a vida e obra do poeta e a repressão que sofreu por parte do regime cubano, por ser um artista de pensamento livre e homossexual. Javier Bardem é sempre sinal de boas interpretações, obviamente, e neste filme não é diferente. Ele foi indicado para vários prêmios, inclusive o Oscar, e recebeu o do Festival de Veneza. Johnny Depp está excelente como um travesti.

Buena Vista Social Club é uma escolha óbvia, eu sei. Mas o filme é maravilhoso em sua simplicidade. É tocante ver todos aqueles velhinhos com uma dedicação quase sacerdotal à música cubana. Quase todos vivendo uma vida muito simples e cheia de restrições, mas tudo isso desaparecendo quando sobem ao palco. Emocionante. Indicado ao Oscar de melhor documentário em 2000.

Surplus é um documentário sueco, somente parte dele é passado em Cuba, mas mesmo assim é muito interessante. Aborda questões do capitalismo e consumo, tudo isso com uma edição frenética e música eletrônica, um formato muito interessante. Uma das melhores cenas é a de uma jovem cubana falando de seu sonho de ir aos Estados Unidos e provar um Big Mac.

Alguém lembra de mais algum? Não vale Miami Vice!

Blu-Ray strikes back!

Acabei de ver no Omelete que o Blu-Ray ganhou a pendenga com o HD DVD. O golpe de misericórdia foi dado ontem quando a Toshiba disse ‘Estou fora dessa furada’. Enfraquecendo, dessa forma, o consórcio inicial do formato.

A Warner já havia anunciado que só lançaria discos em Blu-Ray, o formato, desde então, abocanhou 70% do mercado. Agora só falta a Universal e a Paramount/Dreamworks tirarem o pé da nossa janta. Afinal, foram eles que apoiaram com exclusividade o formato HD DVD, muito inferior ao Blu-Ray. O que o lobby não faz. Se bem que não tem do que eu reclamar agora, essas fofuras só vão abaixar o preço aqui na Jaculândia daqui uns 3 anos.

Pra quem não sabe o formato HD-DVD comporta 15 Gb de informação num disco simples. O formato Blu-Ray, em contrapartida, comporta 25 GB num disco igualmente simples (camada única e de mesmas dimensões de um dvd ou cd). Não tem nem o que comparar né? Mais informações aqui.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Filmes do Final de Semana

O Som do Coração

A princípio inicia-se como um Oliver Twist musical. Mas depois perde as características de um bom melodrama para ceder a cenas pobres. A única coisa que segura o filme são algumas atuações interessantes, Terrence Howard, como um assistente social engajado é brilhante em seu papel tão pequeno. Keri Russel também se sai suficientemente bem como a mãe de Evan. Já Freddie Highmore não se sai tão bem na pele de Eva Taylor/ August Rush, muito embora tenha gostado do seu jeitinho frágil em Em busca da Terra do Nunca, e também tenha achado que ele se saiu muito bem em Um bom Ano, Freddie não repete a mesma atuação aqui. Tanto é que é fácil roubar-lhe a cena, a garotinha negra na seqüência da igreja o prova facilmente. Mas nem Robin Williams está em sua melhor performance neste filme.

O Bebê de Rosemary

Como com qualquer clássico, nunca é demais assistir mais uma vez. Foi minha segunda, e desta vez pude apreciar melhor os aspectos dramatúrgicos. O casal principal (formado por Mia Farrow e John Cassavetes) é fenomenal e tem um química fantástica. Os velhinhos também são um show a parte e oferecem um interessante ponto de vista cômico sobre a história, tão densa e macabra. Mas além de tudo isso o que mais me chama atenção são os sonhos de Rosemary, seus pesadelos e alucinações. Não houve melhor década para pesadelos no cinema do que a década de 60, e dizem que as drogas não trazem benefícios...

Boas curiosidades sobre o filme aqui.

Mandando Bala

Tenho fases, e em algumas delas, por acaso, quero sempre assistir filmes de ação. Mas não sei se é porque não estou numa dessas fases que odiei esse filme. Talvez não. Talvez eu tenha odiado porque ele é ruim mesmo. A princípio simpatizo com o gênero: comédia com ação, especialmente quando eles não se levam a sério demais. Ponto para Mandando Bala, que não se leva a sério em nenhum minuto. Também não me incomoda falta de veracidade em cenas de ação, outro ponto para Mandando Bala, que atira as leis da física pela janela. O problema é que eu gosto de roteiro sabem? E não estou falando de grandes estruturas não, algo simples já ta bom. A impressão que me deu foi que Mandando Bala foi construído em cima de das seqüências de ação e a ‘história’ foi desenvolvida depois. Sendo assim, sempre que os personagens perseguidos (no caso Clive Owen, Monica Bellucci e um bebê) mudam de lugar, os bandidos que os perseguem aparecem momentos depois, sabe-se lá como, atirando aos borbotões. E o filme é basicamente isso: variações de seqüências de ação, variando os locais e as atividades do personagens (por exemplo: ‘Ah vamos fazer uma que eles estão transando no meio do tiroteio?’). Sem nada com o que trabalhar Paul Giamatti também foi resumido a um vilão que diz o texto e faz caretas. Pra piorar o placar o filme ainda assume um tom levemente moralista no final, aí não dá. Nesse gênero eu ainda fico com True Lies. Parafraseando Smith: Sabe o que eu odeio? Filmes com uma trilha sonora tão presente e tão forte que você não tem nem dois minutos sem música metal pra respirar.





quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Volte a ser criança por alguns segundos

Ok, minha lista de prioridades mudou radicalmente. Tive que alterar a lista que eu chamo carinhosamente de ‘Lista da Ansiedade’. O motivo está neste link, o trailer de Indiana Jones IV.

Só posso dizer que ao escutar a música e ver as imagens voltei a ser crianças por uns segundos. Nada como lembrar daquelas velhas Sessões da Tarde vendo Indiana Jones e A Última Cruzada pela enésima vez. Quem não se lembra do cara que tirava o coração das pessoas só com as mãos em Indiana Jones e o Templo da Perdição? Eu sei que essa cena me arrepiava pra caramba quando era criança.

E pelo visto vai ser a mesma coisa dos outros, cenas de ação hilárias e milaborantes, a personalidade magnética de Indy e uma aventura de tirar o fôlego. Que bom saber que Spilberg pode resetar seus filmes, fazer tudo de novo do mesmo jeito, mesmo depois de bobagens como A.I. e filmes excelentes e maduros como Munique. O menino dentro de mim agradece tio Spilberg.

E fala sério, não parece que a Cate Blanchett nasceu pra esse filme?

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Kung Fu Panda


Para quem não sabe eu trabalho em uma empresa de animações (desenhos animados para os íntimos), e, muito embora não esteja diretamente envolvido na animação em si (só na produção e roteiro) eu gosto de acompanhar muito de perto todos os lançamentos da área. Sendo assim, nós aqui na Animassauro estamos obviamente de olho em Wall-E, Toy Story 3 e etc. E sempre que um filme desses estréia é praticamente feriado aqui na empresa. Mas se tem alguns filmes que não despertam tanta paixão há algum tempo são as animações da Dreamworks. A empresa vem decepcionando um pouco em suas produções e a Pixar, ao contrário, está arrasando cada vez mais em seus filmes. Ratatouille que o diga.

Entretanto um filminho da Dreamworks está captando minha atenção há um tempo. É o Kung Fu Panda. Em parte, admito, eu estava interessado pelo filme por causa do Jack Black que dubla o personagem principal. Adoro esse cara, que está envolvido em outro projeto que mal posso esperar pra ver também, dessa vez um live action, o famigerado Be Kind Rewind.

Mas hoje, ao ver o novo trailer de Kung Fu Panda, fiquei muito animado para conferir a história também. Dessa vez parece que personagens bem interessantes vão pintar pros lados da Dreamworks associados a uma boa animação (ao contrário de ‘Shrek 14’). Confira o trailer na dica do Omelete, com direito a trilha de Kill Bill.